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segunda-feira, janeiro 16, 2012

Um amigo de verdade

Autor: Gustavo Corção
Obra: Dez Anos.

Os artigos que andei escrevendo ultimamente sobre alguns pontos da teoria de Albert Einstein trouxeram-me à memória o nome e a figura de um outro judeu, pobre e obscuro, de que talvez nenhum de meus leitores ouviu falar, e que morreu de repente, na força da idade, sem deixar a obra que sonhava escrever. Para mim, entretanto, Nathan Neugroschel foi uma das mais curiosas e ricas personalidades que jamais encontrei. Foi, sem sombra de dúvida, um dos melhores homens que até hoje conheci.

sábado, janeiro 14, 2012

Reminiscências astronômicas

Autor: Gustavo Corção.

Foi no terceiro ano da Escola que voltei à astronomia. Em 1918? Creio que sim. Mas não era à poética astronomia dos anéis de Saturno ou da nebulosa espiral de Andrômeda que eu voltava, e sim à geometria e abstrata, que toma as estrelas como pontos de referência para determinar as coordenadas geográficas. O símbolo se impõe: quando queremos saber com firmeza onde pisamos, devemos erguer os olhos para o céu.

Em 1918, antes da famosa gripe espanhola, que foi uma peste medieval temporã, talvez a última, entreguei-me todo aos ângulos horários, às ascensões retas e ao jogo do xadrez. Há estações da vida mais chuvosas e outras mais secas. Naquele tempo minha paixão foi a das abstrações geométricas, mas muitas vezes, à noite, fechado no quarto, debruçava-me a arranhar o papel no baldado esforço de dizer em verso as coisas indizíveis; e também muitas vezes achei-me a chorar sem saber porquê.